Lucas, o autor dos Atos, tem um esquema mental interessante. Ele pensa em três grandes tempos, onde a força de Deus (o Espírito Santo) está presente: O tempo da promessa (= Antigo Testamento = tempo de Israel), o tempo da realização (= tempo de Jesus = evangelho) e o tempo da Igreja (= a partir de Atos dos Apóstolos).
É fato que a Bíblia contém muito mais profecias para Israel do que para a Igreja. É claro que muitas delas são aplicáveis igualmente à Igreja, mas constitui-se num erro grave achar que todas elas o são por ser a Igreja o “Novo Israel” de Deus.
O Israel que importa é o Israel vivo, as pessoas judaicas modernas, não um grupo de tribos do Médio Oriente antigo.
O Jesus que importa, não importa se a gente crer nele ou não, é Jesus moderno, não tentativa duma apresentação da vida dum Jesus do primeiro século.
A Igreja que importa é a coleção de cristãos que hoje vive, não a comunidade em Jerusalém idealizada por Lucas nos Atos dos Apóstolos.
Mas quem é esse Israel? Esse é um povo o qual, de todos os outros povos da terra, está separado para um propósito. Esse é um povo que foi chamado para ser diferente que todos os outros. Israel é o povo que assume ter ouvido essa chamada e se decidia a viver a essa chamada. Essa é a fundamentação da história desse povo, como ela a partir de Abraão até o dia de hoje está sendo contada.
Essa relação íntima entre a história de Jesus e a história de Israel aparece quando considerarmos como a história de Jesus sobreviveu. Ela sobreviveu porque Jesus sobreviveu. Ela sobreviveu porque Jesus depois da sua morte também exerce o mesmo efeito em pessoas humanas que exercera nos seus primeiros discípulos. Assim como levara os seus discípulos irresistivelmente para dentro da presença do Deus deles, começou agora, pela primeira vez, encarar não-judeus como Deus de Israel. Desse modo, a história bíblica de Israel, este que era chamado de dentro de outras nações e por causa destas, agora novamente encenada e representada na história de Jesus. Jesus é aquele israelita que acorda não-judeus para que estes conheçam e louvem o amor com que Deus ama o seu povo Israel. E é que esse é o efeito de Jesus, representado no testemunho e vida dos seus seguidores, que dura e que se repete até hoje.
A Igreja é não menos concreta e visível que o povo judaico. Mas aquilo que faz a Igreja ser Igreja, não está menos visível que aquilo que faz o povo judaico ser povo de Deus. É Deus quem decide. Enquanto a Israel foi dada a Torá como modelo para como deva viver na sua vocação, o judeu Jesus de Nazaré foi dado à Igreja para o seu guia.
Jáderson Falcão.